(Ouvir com o coração)

 
 Ouvindo com o coração
- © Lenise M. Resende -

Recebi, recentemente, um pedido de músicas para o Dia das Mães, enviado pela regente de um coral infantil. Na falta de novas composições sobre esse tema, ela fará um CD com midis instrumentais de antigas músicas. A lista que ela me enviou, era composta por músicas do disco Obrigado Mãe (1995), de Agnaldo Timóteo, com participação de Ângela Maria.

Ultimamente, joguei um monte de preconceitos na lata de lixo e, tenho ouvido com carinho, músicas e interpretações que não apreciava. E foi com carinho que procurei as músicas desse disco de Agnaldo Timóteo. Disco que alguém da minha família ganhou, em 1995, no formato pequeno, com duas músicas, e sumiu. Mas esquecido não foi. Sempre que era tocado, a cachorrinha que nós tínhamos chorava sem parar. O assunto virou motivo de piada familiar, e isso me faz pensar que o sumiço do disco foi proposital.

Para fazer um teste de aceitação, no domingo de Páscoa, chamei minha mãe para ouvir as músicas que encontrei. Imaginando que ela fosse se emocionar, fiz com que se sentasse, abri o arquivo com as letras, abri as midis e... comecei a cantar. Foi um desastre! Nem eu, nem Agnaldo Timóteo, nem Ângela Maria, conseguimos emocioná-la. Era visível sua vontade de levantar e correr para a cozinha, para preparar o lanche de Páscoa. Vou tentar novamente no Dia das Mães...

Lembro de minha mãe falando com carinho de alguns intérpretes, que quando ouvi em disco me decepcionaram. Por isso, quando uma pessoa da família me ofereceu sua coleção de discos antigos, não aceitei. Mas o tempo foi passando, e minhas observações e reflexões me abriram os olhos e a mente. Quem sabe, também, os ouvidos? Assim, assisti velhos filmes de Carmem Miranda na televisão. Passei a procurar as letras de muitas músicas antigas que costumam representar o Brasil internacionalmente. E a grande transformação se deu quando comecei a cantá-las. Atualmente, não consigo ouvir Aquarela do Brasil, por exemplo, sem que meu lado Carmem Miranda se manifeste.

Não sou dada a exageros e, se aprecio uma música, não importa a nacionalidade. Só que a quantidade de material visual e auditivo estrangeiro na internet é muito grande. Se os profissionais brasileiros não colocarem na internet o maior número possível de material nacional, seremos sufocados. O fato de usarmos programas em inglês, já nos deixa predispostos a achar natural a substituição de sons e imagens nacionais por similares estrangeiros. Então, no que depender de mim, o material nacional será constantemente aproveitado, reciclado e usado.

Em geral, nos testes de aceitação que faço, antes de usar as músicas, é o membro mais novo da família a pessoa que mais gosta. Parece-me que o motivo é o fato dela ter os ouvidos limpos. Limpos, porque antes de ouvir as músicas, ela não ouviu alguém lhe dizer que são velhas, antiquadas ou bregas.

Quem já foi a festas escolares sabe muito bem o que é chorar ao ouvir um coral infantil. E, nesses momentos, nem importa se as cantigas são novas ou velhas, se são de festa junina ou para homenagear a mamãe. Nesses momentos, estamos ouvindo com o coração...
 
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Nota - Crônica filosófica, de internet (reflexão sobre aspectos particulares de comunicação virtual)
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