(Faxina de inverno)

 
Faxina de inverno
- © Lenise M. Resende -
 
Cada família tem seus costumes, em relação a frequência da limpeza da casa. Em relação a faxina, a grande limpeza, acontece o mesmo. Algumas famílias preferem a faxina semanal, outras preferem a mensal. Já a faxina anual, aquela em que as pessoas consertam ou se desfazem de roupas e objetos que não usam mais, no Brasil, costuma ser feita antes do Ano Novo. E, por isso mesmo, costuma ser chamada de faxina de Ano Novo.

Planejar uma grande faxina para o mês de dezembro pode ter diversas motivações. As pessoas práticas aproveitam o décimo terceiro salário para consertar móveis ou eletrodomésticos quebrados, substituí-los por outros mais modernos, ou fazer obras e pintura na casa. As mães costumam incentivar os filhos a doar os brinquedos antigos, deixando espaço para os presentes de Natal. As escolas incentivam os alunos a fazer doação dos livros escolares usados. E as crianças aproveitam para pedir que os pais renovem suas roupas e sapatos.

Nos países onde o inverno é muito rigoroso, e a casa fica vários meses fechada, a faxina anual é feita na primavera. Nos Estados Unidos é chamada de limpeza da primavera (Spring Cleaning). Aqui no Brasil, onde o calor do verão está cada vez mais difícil de suportar, muitas pessoas estão fazendo a faxina anual na primavera. Como a primavera nem sempre tem temperaturas amenas, e não gosto de calor, este ano, comecei minha faxina anual no início do inverno.
 
Para desmontar minha mesa de computador e uma cama de solteiro que seriam doados, foi preciso convocar toda a família. Enquanto um tirava os parafusos, os outros seguravam partes do móvel. A mesa deu um trabalho imenso. Tirar o computador e a impressora, e transferi-los para locais provisórios, sem retirar os fios dos seus respectivos lugares, foi uma tarefa quase impossível. Eram tantos os fios e tão bem enrolados uns nos outros que, puxando um deles, os outros iam junto. O monitor e o CPU ficaram sobre uma mesa e a impressora sobre um gaveteiro. O modem, ligado a um emaranhado de fios, ficou equilibrado sobre o CPU. Por segurança, a mesa e o gaveteiro não poderiam ser movidos, até que a nova mesa chegasse. Mas, antes que isso acontecesse, o modem caiu no chão e dividiu-se em três partes. O susto foi grande, mas a parte central dele, a principal, continuou funcionando.
 
Diante dessa emergência, foi preciso chamar o técnico. Ele marcou uma visita para o dia seguinte, não veio, e só apareceu aqui uma semana depois. Uma semana, também foi o tempo que os móveis desmontados ficaram atravancando o corredor da casa, porque a pessoa que viria buscá-los teve contratempos. Felizmente a nova mesa do computador chegou, e foi levada da sala até o quarto com cuidado, para que não colidisse com as tranqueiras do corredor. O único problema, era a necessidade de arrastar um enorme guarda-roupa que impedia sua entrada no quarto.
 
Arrastei o guarda-roupa, ajudei a empregada a tirar a poeira acumulada atrás dele, enquanto meu filho empurrava a mesa, e tornei a colocá-lo no lugar. Depois, coloquei o monitor e o CPU nos seus devidos lugares, aproveitando para fazer uma caprichada limpeza neles, no teclado, nos fios e na impressora. E, não satisfeita, ainda limpei a parede atrás da mesa, mesmo sabendo que dois dias depois um pintor viria dar o orçamento de pintura em alguns cômodos da casa. Foi uma boa ideia, porque o pintor não veio, remarcou para a semana seguinte, não veio novamente, e avisou que não poderia fazer o serviço.
 
No dia seguinte desse arrastão, acordei com muita dor no braço e no punho direito. Durante muitos dias precisei tomar um medicamento para a dor que me incomodava dia e noite. No punho, apareceu uma forte mancha roxa que demorou a desaparecer.
 
Quando o técnico finalmente veio consertar meu lento e amado computador, recebeu uma enorme lista com os problemas dele. Mesmo que eu não criticasse o meu computador, ultimamente estava difícil trabalhar nele. Devido a dificuldade em gravar CDs para fazer backup, eu temia perder muitos arquivos importantes. Felizmente fui lembrada sobre a existência dos pen drives, e consegui salvar quase todos os arquivos. O pouco que restou, o técnico salvou. E, após quase seis horas de trabalho, meu computador estava formatado, e funcionando quase como se fosse novo. Para uma próxima visita, ficou a troca do gravador de CD e do antiquado modem de 2 megas.
 
Para providenciar a troca do modem, liguei para o provedor, e fiquei contente em saber que com o novo plano não pagaria mais aluguel de modem, o que tornava a mensalidade mais barata. Aparentemente, o teleatendimento do provedor fica no Nordeste pois, além de falarem muito rápido, os atendentes tem um forte sotaque nordestino, que me obriga a pedir que falem mais devagar para que eu entenda o que dizem. Após esse pedido, são raros os atendentes que não demonstram irritação, o que dificulta ainda mais a conversa. Mas parecia estar tudo bem, só que o novo modem, que deveria vir pelo correio, não chegou no dia marcado. Mesmo assim, eles começaram a enviar 10 megas para o velho modem de 2 megas, que não resistiu, me deixando sem internet.
 
Nesse dia, após as duas horas e meia, em que falei com umas dez pessoas diferentes do teleatendimento, repetindo sempre as mesmas informações e recebendo respostas totalmente diferentes, também anotei diversos números de protocolo que não serviam pra nada. Q

Quando finalmente conversei com uma atendente que não tinha sotaque e falava pausadamente, eu estava exausta e tive uma crise de choro quando ela me disse que o conserto demoraria mais de 24 horas. Eu não conseguia me imaginar passando por aquilo tudo novamente, caso continuasse sem internet no dia seguinte. Não sei se a crise de choro ou minha insistência em querer o assunto resolvido o mais rápido possível ajudaram, mas consegui cancelar a mudança do meu plano de 2 megas para 10 megas e ter a internet de volta, antes mesmo de desligar o telefone.
 
Depois desse incidente, mesmo tendo feito somente uma parte da arrumação que desejava, já que algumas coisas só poderão ser feitas após a pintura das paredes, resolvi parar um pouco para descansar. Em breve, as férias de julho irão terminar e os jovens da família irão retornar de viagem. Descansados, poderão me ajudar nem que seja só com sugestões.
 
Enquanto isso, com calma vou recolocando meus arquivos e programas preferidos de volta no computador. Ter uma atitude sem-pressa é normal no meu procedimento diário, a única mudança que irei fazer é redobrar a atenção com meu braço. Mesmo que esteja aparentemente curado, ele ainda precisa de cuidados para que a dor não volte a incomodar.
 
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Nota - Crônica jornalística (apresenta aspectos particulares de notícias ou fatos cotidianos)
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